Body is the vehicle


Life and death, love, desire, pleasure and pain. In this art unit, based on poems of Luís Filipe Cristóvão, the body as energy, spirit and matter, strictly connected to its environment, becomes the vehicle that expresses feelings and thoughts.

The body feels pleasure, and pain, and struggles for salvation.

An exploration of man’s and woman’s nature, of the relationship between them, a journey to our ephemeral existence, an effort of getting close to our inner self, to seek for the unknown, to set questions, and, maybe, give some answers, too.

‘There is a thin light at the end of town’….because of ‘a love that is still here’.


Evi Apostolou

 

Há uma luz esguia ao fundo da cidade.

Talvez não o reconheças, mas o fundo da cidade está arrumado depois da estrada.

Seguimos sempre as placas, como se desejássemos viver pelas normas, pelas autoridades parentais

e depois chegamos ao fim pensando, sou crescido, mas não sei.

Aparece então, no lugar do silêncio, essa luz esguia,

olhos que brilham na sala escura

e mais uma vez retorna ao pensamento, não sei.


There's a thin light at the end of town.

Maybe you won't recognize it, but the end of town is stored behind the road.

We always follow the signs, as if we wish to live by the rules, by parental guidance

and then we get to the end thinking, I'm grown, but I don't know.

Then it appears, where silence was, this thin light,

eyes that glow in the dark room

and returns to thinking once again, I don't know.

 

Costumava ficar fechado no quarto

a ouvir as conversas e os risos dos mais velhos, na sala.

Não se consegue perceber se sofria ou não.

Gosta de estar sozinho, dizia a mãe;

Comporta-se como um tipo crescido, pensava a avó.

Entre os homens grandes cultivara-se o silêncio e a incompreensão.

Se o avô respeitava o pacto também com o pequeno,

por talvez ser presença de lucidez naquela casa,

o pai usava-se do filho constantemente para se fazer valer homem.

Não podes isto, não serves para aquilo.

O pequeno costumava ficar fechado no quarto, a ouvir.

E os grandes não tinham medo que ele deixasse de sentir.


I used to stay locked in my room

listening to the talk and laughter of the elder, in the living room.

You couldn't realize if I was in pain or not.

He likes to be alone, the mother would say;

He behaves as a grown guy, the grandmother would think.

Silence and misunderstanding were cultivated amidst the men.

If the grandfather kept the pact with the child,

maybe because he was the only presence of lucidity in that house,

the father constantly used the son to prove himself as a man.

You can't do this, you’re not good enough for that.

The child used to stay locked in his room, listening.

And the men weren't afraid that he would not feel any more.

 

outros dezassete

para a Catarina Costinha

ontem, enquanto percorria os corredores do centro comercial à procura da tua prenda, dei por mim a pensar no que eu era quando tinha dezassete anos. e aquilo que eu me lembro é de estar em casa, numa algazarra, cheio de gente à minha volta. lembro-me de como aos dezassete anos o corpo pede e a cabeça não percebe. lembro-me de ter lido uma série de livros que me ficaram para a vida inteira. lembro-me de ser uma espécie de jogador de futebol sem jeito para a coisa. lembro-me de escrever poemas. lembro-me de que já lá estava tudo, quando eu tinha dezassete anos. tudo muito mal arrumado. é isso que eu te posso desejar hoje. que agora que tens tudo o saibas arrumar.


another seventeen

to Catarina Costinha

yesterday, as I walked through the mall looking for your present, I found myself thinking about who I was when I had seventeen years old. and what I remember is being at home, in an uproar, surrounded by a lot of people. I remembered that at seventeen the body asks for and the mind doesn't understand. I remember being some kind of soccer player without any talent for it. I remember writing poems. I remember It was everything there, already, when I was seventeen. everything messed up. that is what I can wish you for today. that now that you have everything , you would know how to put it in order.

 

O eterno problema dos carteiros

O eterno problema dos carteiros é não saberem onde guardamos

o nosso amor. Olham os envelopes com os bigodes espantados

e acariciam-nos, violentamente, com carimbos de regresso à solidão.

Estão fechados em casas de janelas vermelhas e saem à rua de farda.

Pisam o chão com a mesma decisão de um exército perdido na batalha

anterior e tocam, tocam muito, às campainhas de quem não está.

O eterno problema dos carteiros são os sacos sem fundo

onde a nossa letra se torna irreconhecível de tão escuro.

Os selos abraçam-se e fogem para o paraíso dos selos,

as letras dançam ao sabor do esquecimento e não se sabe nunca

onde está o remetente e o destinatário. Nos gabinetes, uma vez mais,

bigodes sisudos e derrotados, têm os dedos feios e duros ao toque.

Eu não poderei nunca saber, mas juro que os envelopes choram.

O eterno problema dos carteiros é não terem asas para subir às janelas

das amadas, que se penteiam longamente em frente aos espelhos velhos das avós.

Não poder ser anjo anunciador, nem mágico, navegante, descobridor.

E talvez lhes pese o bigode insólito e burocrático, o pêlo encravado

sobre o lábio. Eu continuo a lançar envelopes em branco da varanda.


The eternal problem with postmen

The eternal problem with postmen is that they know not where we keep

our love. They look at the envelops with amazed mustaches

and caress them with stamps, violently, back to loneliness.

They are locked in red window houses and come outside in uniform.

They step on the ground with the same determination of an army lost in the previous

battle and they ring, they ring a lot, the bells of those who aren't there.

The eternal problem for postmen are bottomless bags

where our handwrite becomes unrecognizable in the dark.

The stamps embrace each other and run off to stamp heaven,

the letters dance at the sound of oblivion and one never knows

where the sender and the addressee is. In cabinets, once more,

serious and defeated mustaches have ugly and stiff fingers to the touch.

I will never know, but I could swear that envelops weep.

The eternal problem with postmen is they don't have wings to climb up to the windows

of the beloved ones, who comb their hair slowly in front of grandmother's mirrors.

Not being the annunciating angel, nor magical, navigator, discoverer.

And maybe the unusual and bureaucratic mustache weights on them, the ingrowing hair

just above the lip. I keep on throwing blank envelops over the balcony.

 

Olhar-te nos olhos num café italiano

Não te deixes morrer antes de me ver

uma outra vez, aqui, neste café italiano

e que eu te possa nesse dia dizer, em voz alta,

que a maneira como olho por teus olhos dentro

me faz sentir a afogar-me num mar espesso.

Não te deixes morrer antes que o sol

nos possa vir fazer brilhar as peles claras

e que eu te possa nesse dia dizer, em voz alta,

que o tempo que eu imagino calmo e nosso

chega como a maresia à nossa terra.

Não te deixes morrer antes que as lágrimas

façam brotar flores sorridentes deste mármore

e que eu te possa nesse dia dizer, em voz bem alta,

que a curva dos meus dedos sobre a tua cintura

é o círculo perfeito de um amor que ainda subsiste.


Looking in your eyes in an Italian Coffeehouse

Don't you die before you see me

once again, here, in this Italian coffeehouse

so I can in that day tell you, out loud,

that the way I look deep into your eyes

makes me feel drowning in a thick sea.

Don't you die before the sun

can came and shine on our light skin

So I can in that day tell you, out loud,

that the time I imagine calm and ours

arrives to our motherland like a sea breeze.

Don't let yourself die before tears

make smiling flowers bloom on this marble

so I can in that day tell you, out loud,

that the curve my fingers make on your waist

is the perfect circle of a love that is still here.

 

Male Love

Tinhas vestida uma camisa do Arsenal de Londres

e à tua frente uma garrafa vazia de Coca-Cola:

não sei que dia seria mas era seguramente Outono

ainda não muito frio mas cheio de cinzento no céu.

Eu sentei-me à tua frente e pedi mais uma Cola,

só a voz monocórdica do relator do jogo

se ouvia a todo o comprimento do café.

Tínhamos dezasseis, dezassete anos, não me lembro,

o suor a cair-nos pela face e um sorriso

muito mais que entristecido nos nossos lábios.

Lembro-me do jornal aberto na página trinta e três

de um jovem jogador acidentado e ferido

da ausência de qualquer esperança e qualquer alegria

naquele café longe de todos os estádios do mundo.

Tinhas vestida uma camisa do Arsenal de Londres

e à tua frente uma garrafa vazia de Coca-Cola:

era seguramente Outono, final de tarde a jogar futebol.

Ficámos calados quase uma hora, olhares estendidos um sobre o outro

e depois tu levantaste-te, deixaste umas moedas em cima da mesa, e foste embora.

Lembro-me do jornal aberto, impresso a uma cor,

com os resultados de todos os campeonatos nacionais

e também regionais, um mapa desfeito em uma só página

muito maior do que os nossos braços poderiam segurar

naquele café longe de todos os estádios do mundo

eu, que já sabia que tinhas ido embora para sempre,

dei enfim pela tua falta, entrada a pés juntos no meu coração.


Male Love

You wore an Arsenal's shirt

and had an empty coca-cola bottle in front of you:

I don't know what day it was but it was certainly Fall

still not very cold but full of grey skies.

I sat in front of you and ordered another Coke

only the dull voice of the speaker

broke the silence in the entire coffeehouse.

We were sixteen, seventeen years old, I don't recall,

sweat pouring down our faces and a smile

a lot more than sadden on our lips.

I remember the newspaper open at page thirty three,

a young player injured and hurt,

and the absence of any hope or joy

in that coffeehouse away from all the stadiums in the world.

You wore an Arsenal's shirt

and had an empty coca-cola bottle in front of you:

it was certainly Fall, an evening spent playing soccer.

We sat silent for an hour, eyes stretching over each other,

and then you stood, left some coins on the table, and left.

I remember the newspaper, in black and white,

with the scores of every national championship

and even the non-league results, a shredded map in a single page

much too big for our arms to hold

in that coffeehouse away from all the stadiums of the world

I, who already knew you had gone for good,

missed you at last, two footed tackle at my heart.

 

Catarina

Para a Catarina Costinha

Não há nenhum mistério nas coisas

tudo tudo é muito simples

e cada descoberta chega sempre atrasada

porque ali esteve sempre para quem a quisesse ver.

Se o mundo inteiro acreditasse em ti, Catarina,

ninguém conheceria a doçura do teu sorriso surpreendido

pelas pequenas coisas que trago nos bolsos

e deixo, sem falar, em cima da mesa do teu quarto.


Catarina

To Catarina Costinha

There is no mystery in things

everything everything is much simpler

and each discovery is already too late

for it has always been there for those who care to see it.

If the entire world believed you, Catarina,

nobody would know the sweetness of your surprised smile

over the little things I bring in my pockets

and leave, without a word, on your bedside table.

 

Poesia e documento

O poeta recolhe documentos, publica-os, sente que o texto precisa

De sentidos, de um sentido mais, para além do ritmo martelado

Das palavras, para lá da fusão de sentimentos na cabeça de quem lê;

De repente, o coração acelera, os olhos abrem-se um pouco mais

E o leitor não é leitor, pequeno peão num jogo criado sem outra razão

Aparente que o sentir-se vivo.

O poeta quer estar vivo e por isso parte mundo fora a escrever poemas

Que assinala com datas e nomes de cidades, fazendo assim do jogo

Um mapa que espera um dia percorrido por jovens imberbes aspirantes

Ao texto original dessa cidade, não fosse ele já ter sido escrito milhares

De vezes na língua nativa de uma forma que a míope língua portuguesa

Só pode imaginar. Ao crítico resta o trabalho de entregar feitorias,

A Bélgica para Herberto Helder, ó talentosos místicos da Louvaina.

O poeta ri-se.

E tudo isto era o eu estar sentado nos sofás de uma câmara municipal

Enquanto esperava reuniões e burocracias que demonstro facilmente

Poderem ser transformadas em jogo, em poesia, como este sofá branco,

Os candeeiros, que imagino trazidos da sala de solteiro de algum vereador,

De algum funcionário zeloso, de algum cidadão ignorante da poesia

Como ciência que, podendo ser validada, não carece de qualquer documento.


Poetry and papers

The poet gathers papers, publishes them, feels the text requires

Meanings, yet another meaning, beyond the paced rhythm

Of words, beyond the melting pot of feelings in the readers mind;

Suddenly, the heart speeds up, the eyes open a little wider

And the reader is no longer the reader, small pawn in a game created by no other

Apparent reason than the one of feeling alive.

The poet wants to feel alive and so he roams the world writing poems

That he signals with dates and city names, thus making the game

A map he wishes young beardless wannabes will follow some day

To the founding writing of that town, hadn't it already been written thousands

Of times in the native language in a way the shortsighted Portuguese language

Can only imagine. The critic is left with the job of distributing territories,

Belgium to Herberto Helder, oh talented mystics of Louvaine.

The poet laughs.

And all this was me, sat in the sofas of some city hall

While waiting for meetings and bureaucracies witch I easily demonstrate

Can be turned into a game, in poetry, like this white sofa,

The lamps, which I imagine brought from the single room of some councilman,

Some overzealous worker, some citizen unaware of poetry

as a science that, validated as it may, requires no paper.

 

Uma questão de perdão

para o João Andrade

Quando as mais belas mulheres aqui chegaram,

eram já inconfessáveis meus pecados e por isso

nunca me perdoarei. Sei de ciência certa que de

nada me vale ajoelhar na sala fria do confessionário,

o meu mal foi realizado e na minha pele gravado

com o calor do ferro.

Quando as mais belas mulheres se sentaram a meu lado

e acariciaram os seus próprios cabelos, já as palavras

me eram escassas e os olhos fracos, chorosos.

Eu deixei-me ficar à chuva e ao vento, esperei

que chegassem de entre todos os mais novos

e vi-os abraçar desinteressados os corpos mais

brilhantes do universo.

Quando as mais belas mulheres me dirigiram

a palavra, eu nada percebi, vivia há muito no

meu próprio inferno cheio de dores. De nada

adiantavam os seus gestos, os seus olhares, não

havia como aliviar meu sofrimento. Deixaram-se

ficar comigo, perguntando porque só eu não as

adorava. E a minha resposta foi um bater de pés

no chão, as mãos apertando na cara as feições.

Eram já inconfessáveis meus pecados e, por isso,

nunca me perdoarei.


A question of forgiveness

to João Andrade

When the most beautiful women arrived here,

my sins were already unspeakable and for that

I will never forgive myself. I know for sure that

kneeling in the cold confessional room won’t help me,

my mistake was done and engraved in my skin

with a burning iron.

When the most beautiful women sat at my side

And caressed their own hair, words were

already scarce and the eyes weeping.

I stood in the rain and wind, I have waited

until the youngest of them arrived

and saw them passively embrace the most

shining bodies of the Universe.

When the most beautiful women spoke

to me I understood nothing, I lived for too long

in my own hell filled with pain. My gestures

my stare, were of no use. My suffering

could not be lightened. They stood with me,

wondering why I didn't adored them

any longer. And I answered by tapping my feet,

the hands skeezing my features.

My sins were already unspeakable and, for that,

I will never forget myself.

 

Louvor e Simplificação de Armando Silva Carvalho

Já não vou escrever uma rosa na janela fechada

que são os teus olhos a querer adormecer junto ao

parque verde da cidade, nem vou ser o novo grande

poeta que tu um dia esperaste que eu fosse:

este poema não é meteorológico mas eu consigo

adivinhar o vento e a chuva todas as manhãs,

tal como conheço os críticos e sei que não sirvo

para gatinhar noutra casa que não seja a do teu coração.

Até tu já adivinhas as tantas coisas que faço

para te inventar um sorriso, e tão fácil me parece

quando o consigo, tanto quanto foi nascer assim,

fora de mão, e para o resto do sempre ter os pés

à margem dos caminhos das certezas. Sim, reconheço:

sou um poeta sem qualidades para os líricos do meu tempo

e só a minha utopia não lamenta as tantas palavras

que desconheço para me dizer de um outro lado.

Não alcancei o fingimento, não sei se vou ou não por aí,

tenho a liberdade livre dos aldeões pacientes,

o sossego de poder acordar junto de ti.

Não exijo mais nada, como te disse,

adivinhei a maneira certa de adormecer

com o barulho aterrador das águas.


Praise and Simplification of Armando Silva Carvalho

I will no more write a rose in the closed windows

that are your eyes when trying to fall asleep near to

the city's green park, nor be the new great

poet that one day you have hoped I would be:

this poem is not meteorological but I can

foretell the wind and the rain every morning

just as I can tell the critics and know I am no good

for crawling in any home other than the one of your heart.

Even you can foretell all the things I make

to invent you a smile, and it seems so easy

when I accomplish it, as much as being born like this,

out of hand, and for ever after have the feet

walk the fringe of the path of certainty. Yes, I admit:

I am a poet without qualities for the lyricists of my time

and my utopia alone does not regret the many words

I do not know to read myself from another angle.

I did not achieved make-believe, know not if I will go left or right,

I have the free liberty of patient farmers,

the ease of being able to wake up next to you.

I demand nothing else, as I told you,

I guessed the right way of falling asleep

with the terrifying sound of water.

 

Poemas de Luís Filipe Cristóvão

Tradução de Justa Barbosa

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